Aqui expresso as saudades que tenho pelo Brasil. Nao paro de pensar no Brasil. Sai dai faz mais de 10 anos. Talvez esteja na hora de voltar. As vezes penso em escrever um Manifesto para todos nos que moramos no exílio cujo titulo seria:
CHEGA DESTA BESTEIRA DE MORAR FORA.

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31 de outubro, 2003

Hoje estava empacotando coisas... tralha mesmo. Tralha minha. De anos. O radio estava ligado. Musica pop. Nao prestava atenção. O som apenas me fazia companhia durante esta fase de mudança. Derepente eu notei que a musica estava chata. Mas no mesmo instante em que pensei em trocar de estação tive uma reação (ou uma anti-reação) que tive muitas vezes muitos anos atras no Brasil andado de carro no Eixão. Tinha acabado de escurecer aqui na Holanda. E num reflexo relampago o meu corpo nao se levantou, o meu braço nao se estendeu até o radio. Nao. Nao adianta procurar outra estação agora. Vai começar a Voz do Brasil.


24 de outubro, 2003

O CONCORDE SOBRE BRASILIA

Hoje o ultimo dia que o Concorde voa. Estou na Holanda e acabo de assistir emocionado a transmisso ao vivo das ltimas aterrisagens de tres Concordes da British Airways pela BBC. A forma do avio provoca em mim uma nostalgia de uma era em que o mundo sonhava alto. Elegancia demais para uma maquina s. No tem como no ficar arrepiado e com um n na garganta sabendo que nenhum de ns vai poder sonhar em voar perto do espao, ver a curvatura da terra e voar duas vezes a velociadade do som. E claro tenho nostalgia pela poca que vivi em Braslia e vi pela primeira vez o Concorde.

Era mais ou menos 1978 e o primeiro ministro da Frana Giscard DEstang veio a Braslia de Concorde. Parece que a bela nave recebeu mais ateno da mdia do que o prprio primeiro ministro. Eu estava no Colgio Santo Antonio tendo aulas de ginstica olmpica e perdi a comoo toda quando o avio passou por cima de Braslia. Ouvi de amigos como o meu irmo Alex correu feito relmpago pelos corredores da Escola Americana pulando uma mesa at chegar no campo de futebol onde foi parar para ter uma vista melhor do supersnico presidencial. Ele me contou como o Concorde voava baixo acompanhado por um cortejo de tres jatos da FAB. Um de cada lado e mais um na frente que voava fazendo curvas graciosas. Ele me descreveu o que viu to bem que guardo a imagem como se eu tivesse o visto tambem.

Mas acabei ficando triste aquele dia porque havia perdido o Concorde. A, um ou dois dias depois eu estava no carro sendo levado para a escola. Estavamos no Eixo Monumental, lado Sul perto do Touring Club. Tinhamos acabado de passar por debaixo da Plataforma Rodoviario quando o transito simplesmente parou. As pessoas desciam dos carros e olhavam para cima. O Concorde estava voando por cima do Congresso inclinando as suas asas lindas e brancas no mais azul dos cus. Giscard DEstang partia sobre uma cidade boquiaberta, portas dos carros abertos, pessoas em p no asfalto esperando o futuro passar.

Foi a coisa mais linda que eu tinha visto nos meus 13 ou 14 anos de vida. Foi como se um dos monumentos de Niemeyer, cheio de hlio, havia se desprendido do barro de Brasilia. Um monumento em pleno vo sobre um jardim de monumentos. No radio do carro, Jane e Herondy cantavam: Nao se v! No me abandone por favor! Pois sem voc vou ficar louco!


7 de outubro, 2003

Numa conversa de bar em Amsterdam com um goiano fico sabendo que a Igreja do Rosario de Pirinopolis foi destruido num incendio meses atras. E eu sem saber de nada. Eu procuro ler pelo menos as manchetes do Correio Braziliense e Jornal do Brasil todos os dias pela internet. Sei da carta que o Lulu Santos escrever esculhambando o Faustão. Sei que tiraram do ar um programa mentiroso do Gugu. Vejo muito as iniciais PPC. Mas deve ter passado um dia em que não chequei. . . o dia em que a igreja com suas torres de barroco-Mondrian foi apagado. Penso no quanto eu perco. No quão alienado vou ficando ao estar longe do Brasil.

Procuro fotos na internet do que sobrou da igreja. Deve ter sobrado algo. Um artigo diz que só um muro sobrou. Outro diz que uma torre está pra desabar. Leio que Pirí não tinha sequer carro de bombeiros. Como não pensaram nisso? A pobreza me espanta e fico mais triste debaixo de um céu que, hoje, parece chorar e espirrar.

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4 de julho, 2003

Ontem a noite assiste na TV belga o filme 4 dias em Setembro de Bruno Barreto. Claro que cenas do Rio sempre provocam em mim saudades... mas ontem o que me pegou mais foi quando o Fernando Gabeira anda da porta da casa (onde estava sendo mantido o embaixador americano) até o portão pra ver quem tocou a campainha. Não foi o suspense que me pegou mas o suor pingando do seu pescoço encharcando a sua camiseta. Saudades de sentir calor. Suor. Tão simples...

Aqui na Holanda (mesmo no verão)... é uma raridade.


14 de junho, 2003

O meu picadinho hoje ficou tão gostoso que fiquei emocionado.


12 de junho, 2003

Hoje me lembrei de estar saindo da Sala Marins Penna em Brasilia... não uma vez mas muitas vezes como acontecia após um espetáculo... Quem sai da Sala Martins Penna de noite se encontra entre as estrelas e luzes de Brasilia com o ronco da rodoviaria a esquerda... logo ali embaixo... o grande motor feio do grande avião bonito. Olho para as estrelas, olho pra os ministérios congresso e catedral... Olho para as estrelas, olho pra os ministérios congresso e catedral... Repito. Repito. Respiro fundo. Grandes espaços abertos entres as luzes de Brasilia... os vazios espaços verdes (de noite espaços pretos). A noite se deitando em retalhos. Quem sai da Sala Martins Penna se encontra acima da esplanada que fica acima do lago Paranoá que fica acima do Planalto Central que fica acima (se você encher o peito de ar alongar a coluna e erguer o queixo) do Brasil.


7 de maio, 2003

Ontem, indo trabalhar de bicicleta, sobre uma ponte sobre mais um canal em Amsterdam... um cheiro de pão levemente queimado. Um cheiro de padaria. Visões de ruas estreitas, quase preto e branco. Gradios de ferro detalhados, asfalto grosso e sarjetas profundas. Fios eletricos, cabos caóticos saindo de todas as direções dos topos de postes tortos contra um céu prestes a chover. A primeira vez que senti cheiro de padaria foi em Belém.


5 de maio, 2003

Hoje vi formigas subindo uma arvore. Eram poucos formando uma fileira rala, lenta, quase embreagada... talvez do inverno longo. Coisinhas assim me fazem pensar no Brasil agora. A Holanda quase não tem formiga. E só noto isso quando chega a primavera (sempre tardio). Olhei o verde ao redor da arvore. Toda folha, todo verde aqui é temporario.


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